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16 October 2004

fahrenheit 11 de setembro

Logo no início de "Fahrenheit 11 de Setembro" (Fahrenheit 9/11) já vemos a que veio Michael Moore, documentarista premiado por seu trabalho anterior "Tiros em Columbine" (Bowling for Columbine): ao tentar explicar o que aconteceu na eleição que deu a vitória a George W. Bush, ele se pergunta se tudo não passou de um sonho. Ele mesmo responde: foi tudo real.

Em esse filme, Michael Moore tem apenas o objetivo declarado desde o início de difamar o presidente George W. Bush e fazer acreditar que todo o seu governo foi uma imensa mentira, uma farsa arquitetada por ele e seus companheiros texanos pra favorecer as grandes corporações as quais eles comandam. Para isso, começa com a farsa das eleições, depois passa pela carreira de Bush como empresário (falido), busca a ligação entre Bush e a família Bin Laden, o favorecimento das corporações comandadas pelos correligionários de Bush através do atentado às torres gêmeas e, finalmente, mostra a grande farsa da Guerra do Iraque.

A genialidade do novo filme de Michael Moore está na utilização de imagens de arquivo e de depoimentos. Moore optou por aparecer menos durante o filme e editou as imagens pesquisadas de depoimentos de Bush e seus companheiros da maneira que bem entendeu, além de inserir as entrevistas que realizou. Desta maneira, ele cria as cenas mais engraçadas do filme colocando falas de Bush em momentos diversos, guiando seu documentário através da locução em off. Assim, ao invés de manipular o filme através de sua presença na tela, Moore manipula as imagens de arquivo, usando falas fora de contexto, repetições e imagens banais do presidente, como a cena em que Bush joga golfe. Porém, aqui reside um aspecto importante do filme: o seu caráter metalingüístico, já que reflete sobre o documentário e mexe na estrutura e na proposta que esperamos de um documentário. Durante os créditos iniciais, ao mostrar Bush e os principais nome de seu governo sendo penteados e maquiados antes de transmissões televisivas, algo trivial mas aqui utilizado para ridicularizar essas pessoas, Moore já deixa claro que manipulará imagens e que seu único objetivo é ridicularizar Bush, tentando fazê-lo o homem mais incapaz do mundo. Portanto, Moore subverte o que o público espera (inocentemente) de qualquer documentário: investigação e imparcialidade. Investigação o filme possui, entretanto nada imparcial. Moore declara abertamente nos créditos iniciais que não está nem aí para as regras éticas do documentário e que não está fazendo cinema. Ele quer convencer o povo estadosunidense de que reeleger Bush é um mal para o país. Neste ponto o filme é doutrinador, mas aqui está seu caráter mais importante e onde reside a metalinguagem, pois em nenhum momento o filme procura não ser doutrinador e imparcial. E ao tentar não fazer cinema, mas sim tentar convencer o povo da mentira que é Bush, paradoxalmente ele faz um grande filme, um cinema político de primeira.

Aqui, características de um cinema de qualidade estão presentes em maior escala que "Tiros em Columbine". Moore evoluiu como cineasta, pois entendeu como deixa as imagens falarem mais do que sua intervenção na tela. O personagem Michael Moore aparece apenas em quatro momentos no filme, deixando que as imagens de arquivo tenham um destaque, mas Moore sempre está presente, já que a locução guia a atenção do público para as falas das imagens. Após a primeira hora de filme, a locução descansa e mais as imagens começam a falar por si só, principalmente após a seqüência de imagens dos militares no Iraque. Outras cenas conseguem um grande destaque, como a que Bush fica sabendo do ataque às torres e o depoimento de Britney Spears (nem ela escapou). Contudo, as mais fantásticas cenas são as dos civis iraquianos que perderam parentes durante o ataque dos EUA (contrapondo-se à precisão que Rumsfeld proclama da força militar estadosunidense) e a maravilhosa cena em que retrata o choque dos aviões contra as torres em Nova York apenas com o som e a tela preta durante toda a seqüência. O som é única referência de que é o atentado de 11 de setembro.

Outros pontos positivos do filme são a trilha sonora muito bem escolhida já que causa um contra ponto às cenas patéticas e, mais uma vez paradoxalmente, as torna mais patéticas; as entrevistas, já que Moore consegue retirar delas exatamente as frases que precisa para o documentário ter mais impacto e os trechos que Moore utiliza de filmes e seriados antigos, principalmente os westens.

O importante é perceber (e isso é o que pode atormentar parte da crítica especializada) que os filmes de Michael Moore, e este em especial, não põem ser analisados como um documentário comum, pois percebe-se que este não é um documentário pelo principal aspectos já citado: a sua manipulação assumida. Isso coloca "Fahrenheit 11 de Setembro" num outro tipo de filme, pois apesar de ser um assunto com documentação e real, esta realidade é recriada por Michael Moore para provar seu ponto de vista. Moore mexe na ética do documentário e isso torna seu cinema especial dentro do gênero documental; Moore manipula e não esconde isso, não tenta fingir se imparcial. O público não é enganado por uma falsa imparcialidade e já é avisado de que se quer chegar ao fim do filme é bom se entregar à visão que Moore tem dos fatos. Entregar-se ao que Moore quer provar. Assim como fazem os filmes catástrofes. Assim como fazem as comédias fantásticas e os romances fantasiosos. Como fazem os filmes de ação e os de artes marciais asiáticos. A diferença é que em "Fahrenheit 11 de Setembro" os eventos são reais.

clube de luta

Muitos filmes ficam incompreendidos apenas pelo preconceito das pessoas ou pela falta de compreensão dos detalhes, principalmente quando se trata de filmes minimalistas e extremamente metafóricos, onde temos sempre uma surpresa e, acima de tudo, temos de interagir com o filme, temos que fazer parte do filme, temos que entrar dentro dele e sentir o que cada personagem está sentindo, para assim entendermos o verdadeiro sentido da história. Existem muitos filmes assim e às vezes eles acabam por serem excluídos, mesmo sendo obras primorosas, como "Clube da Luta" (Fight Club), em que David Fincher vai mais longe ainda do que muitos já haviam achado exagero em "Seven".

O roteiro de Jim Uhls conta a história de um homem (Edward Norton) que tem uma vida pacata de cidade grande em que trabalha no escritório de supervisão de carros de uma multinacional. Sofrendo de insônia, ele começa a freqüentar grupo de ajuda, mesmo sem possuir os problemas daquelas pessoas, como tuberculose, câncer de testículo ou problemas de alcoolismo. Então, aparece uma outra farsante (Helena Bonham Carter) e começa a trazer todos os problemas de volta a ele. Um dia, entretanto, ele conhece um fabricante de sabonetes chamado Tyler Durden (Brad Pitt) iniciando uma verdadeira mudança em sua vida. Os dois fundam o "clube da luta", um lugar onde os homens se encontravam e espancavam até que realizassem seus desejos de libertação para fora.

David Fincher consegue dar um ritmo excepcional para a fita, que de início pode parecer um simples filme de ação barata e sem inteligência, porém se mostrando ao longo do filme, uma história complexa e que toca em sentimentos e pontos da nossa vida que achamos ser o jeito certo, mas que não nos fazem viver. Fincher torna todas as cenas de ação mais sangrentas e violentas do que o comum, exatamente com o objetivo de chocar o telespectador e não deixar o filme fácil. O filme vai se tornando intrigante e cada vez mais chocante, despertando nas pessoas uma vontade de saber como será o final. Isso se torna mais aguçado em partes por causa do personagem de Edward Norton, um ser carismático e representante de todos nós. O papel de Norton é um retrato da vida moderna e do consumismo e está morto por causa disso. Fincher dá esse tom mórbido para o filme e ainda consegue fazer explicações detalhadas das vidas das personagens ou de suas ações sem quebrar o ritmo. Além disso, o belo trabalho de edição de Jim Haygood faz com que a estrutura básica do filme seja quebrada mas não deixa que isso faça com que o público se desinteresse pela história. Ao contrário, por ser contado em uma estrutura totalmente atemporal, somos jogados para dentro da história e queremos cada vez mais saber como tudo se desfechará.

Edward Norton foi a escolha perfeita para o papel principal, pois seu porte físico e suas expressões faciais são insubstituíveis para esse papel. Ele consegue ser simpático e enigmático, deixando o público confuso quanto ao que sentir por ele, mas nunca sem perder o carisma. O Tyler Durden de Brad Pitt é um dos melhores papéis desse ator, que parece só se soltar de verdade quando trabalha com Fincher. Durden traz toda a revolta, todo o sentimento de destruição, toda a anarquia que falta ao personagem de Norton e esse contraponto é interessantíssimo, principalmente porque Pitt e Norton fizeram cada um sua parte bem. Aí entra a personagem de Helena Bonham Carter, uma espécie de ligação entre os dois, um meio termo. Uma garota que também tem esse sentimento de revolta, mas que apenas se revolta com aquilo que está ao seu alcance e não com o mundo como Tyler.

David Fincher esbanja talento na direção deste que é sem dúvida um dos filmes mais bem dirigidos e montados de todos os tempos. As performances de Norton e Pitt também são exuberantes. Vale ressaltar que apesar de a trama fornecer inúmeras dicas a respeito do porquê dos acontecimentos, é quase impossível prever o final. Recomendo que seja visto mais de uma vez, com particular atenção nos detalhes durante as repetições.

15 October 2004

irreversível

O filme "Irreversível" (Irreversible) trata-se da história de Alex e Marcus, um casal apaixonado. Depois de uma briga - que acontece numa festa onde também está o ex-marido de Alex, Pierre -- a lindíssima garota volta para casa sozinha. Num túnel do metrô é atacada e estuprada por um homem enfurecido. Com sede de vingança, Marcus e Pierre procuram o estuprador pelas ruas e numa boate. Estrelado por Mônica Bellucci, estrela de Malena e Matrix, uma das mulheres mais sensuais do planeta e seu marido na vida real, Vincent Cassel, "Irreversível" é um filme que já entrou para a história do cinema.

Um filme fortíssimo, chocante, inquietante, mostrado de forma não-usual e com tons de cinza em sua mensagem e na conduta dos personagens. Na minha opinião, há algumas cenas desnecessárias (muito "arte"), como por exemplo, ums giros de câmera que deixa o espectador tonto (e parece que não vai párar). Além disso, o diretor quis chocar e conseguiu, pois a cena de estupro foi exagerada, da abertura do ziper da calça até a ejaculação e espancamento na mulher -- ums 5 min de cena de estupro -- mas não deixa de ser real, óbvio, pois o sofrimento da personagem naquele momento foi bem demonstrado. Há também uma outra cena de espancamento com tanta realidade, que jamais vi numa cena de cinema, em que nela inclui o uso de um extintor de incêndio para o esmagamento do crânio do "inimigo". Enfim, um tipo de vingança feita por um homem que teve sua mulher estuprada. Absolutamente diferente, e vale a pena dar uma olhada, nem que seja para ficar com repulsa.

hilda furacão

Este outono passado eu assisti a série "Hilda Furacão", que foi distribuído recentemente ao DVD.

A trajetória de Hilda Furacão começou em 1991, no romance do mineiro Roberto Drummond que uniu numa narrativa cativante fatos e pessoas reais a uma fértil imaginação. Rapidamente o livro estourou no mercado editorial. Em 1998, foi a vez de Glória Perez adaptá-lo para o formato de minissérie com direção geral de Wolf Maya. Resultado: sucesso! Uma grande produção com gravações na cidade histórica de Tiradentes, transformada em Santana dos Ferros, e em Belo Horizonte, que assiste ao domínio de Hilda ao mesmo tempo em que a revolução de 64 está sendo preparada. Mas o que leva uma garota de família tradicional a abandonar tudo e instalar-se no centro da zona boêmia de uma cidade, despertando paixões até mesmo num homem que é considerado santo?

A série já vale a pena somente pela presença da maravilhosa Ana Paula Arósio, que embora ainda não seja um primor de atriz, mostra-se bastante convincente na pele da geniosa Hilda. O seriado foi um sucesso, um boa representação do elenco, boa fotografia, e uma trama interessantissima.

o gosto dos outros

No verão eu assisti o filme "O Gosto Dos Outros" (Le Gôut Des Autres), que foi distribuído recentemente ao DVD.

Jean-Jaques Castella é um industrial raiando o estereótipo de novo-rico, casado com Angélique, uma mulher banal que se recusa a aceitar a fealdade do mundo que a rodeia, e que se refuga numa casa cor-de-rosa e no guarda-roupa. Quando travamos conhecimento com estes pesonagens, encontram-se num restaurante, tomando a refeição com Hubert, o ajudante contratado para auxiliar Castella e que provém de um meio completamente diferente, académico e educado, o que é fonte de inúmeros conflitos com o patrão.

Noutra mesa estão Bruno, o motorista, que está apaixonado por uma namorada que se deslocou para um estágio nos EUA; Bruno é um homem bom, que não vê mal em coisa alguma e acredita na pureza das pessoas. Na sua companhia está Frank, o guarda-costa contratado temporariamente, e que é a antitese do companheiro: ex-polícia, ciente da crueldade das pessoas e com um toque de mania de perseguição.

Em geral cinema francês já é garantia de um filme pelo menos original. É o caso. Um filme interessante, que aborda diversas relações - e paixões - e vai deixando a gente curioso pra saber o que vai ser de cada uma. Nada extraordinário, mas diferente e que se assiste com prazer por ser extremamente bem feito, como costuma acontecer com o cinema da França, notadamente em se tratando de elenco e direção.

14 October 2004

amores brutos

Na primavera eu assisti o filme "Amores Brutos" (Amores Perros), que foi distribuído recentemente ao DVD.

Na confusa cidade do México, um carro em alta velocidade provoca um acidente que estraga três vidas. Octavio, o adolescente ao volante, fugia em alta velocidade das grandes confusões que deixou para trás, tendo ao lado seu cão Cofi, que sangra sem parar. Octavio ama sua cunhada, Susana - e Cofi é a fonte de renda dos dois.
No outro carro, a modelo Valeria dirigia feliz. Ela tinha acabado de se mudar para viver ao lado de seu amor, o executivo Daniel. Depois do acidente, conhece o inferno. Até Richi, o cachorrinho de Valeria, assume a depressão e o desespero da dupla de recém-casados.
El Chivo é uma testemunha do acidente. Ex-guerrilheiro comunista, atual matador de aluguel, ele é o modelo do desencanto e da amargura. Corre para o local do acidente, mas a única vida que lhe interessa ali é a de Cofi. Curiosamente, é o cachorro que perturba a sua vida, dando-lhe a chance de se reconciliar com o passado.

"Amores Brutos" é a tradução mais densa do amor, todas as suas variações e tudo o que pode representar. O roteiro é bastante inteligente e ágil em reunir as três histórias presentes. É claro, que em alguns momentos, há uma quebra no ritmo, mas nada que comprometa o resultado final. O filme conta com realismo, magnitude e violência mostrados de uma forma não para chocar, mas para mostrar as dificuldades existentes, acima de tudo relacionadas com o amor e a perda; num estilo que lembra muito Quentin Tarantino. É mais um bom exemplo que podemos encontrar (e cada vez mais), cinema de qualidade fora dos Estados Unidos.

cidade de deus

Este outono passado eu assisti o filme "Cidade de Deus", que foi distribuído recentemente ao DVD.

"Cidade de Deus" marcou época na história do cinema brasileiro. Baseado no romance de Paulo Lins, é uma saga urbana que acompanha o crescimento do conjunto habitacional de Cidade de Deus, entre o fim dos anos 60 e o começo dos anos 80, pelo olhar de dois jovens que moram na comunidade: Buscapé, que sonha se tornar fotógrafo, e Dadinho que se torna um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro. Nos anos 70, Zé Pequeno encontra um rival: Mané Galinha, que quer vingança pelo estupro de sua namorada e pela morte de seu irmão. Estoura a guerra na Cidade de Deus. Nesse meio tempo, Buscapé, que sempre sonhou ser fotógrafo, consegue sua primeira câmera profissional. Registrar esta guerra será a grande chance de sua vida.

"Cidade de Deus" mostra mais uma vez a grande fase que vive o Cinema Nacional. É realmente animador ver filmes como esse e saber que trata-se de uma produção nacional. Nesse filme temos todos ingredientes de um grande filme: uma boa história, uma direção correta e principalmente uma crítica social. "Cidade de Deus" é verdadeiro, nos mostra uma realidade nada bonita e nos faz olhar para onde nunca olhamos e por um outro ponto de vista. O que vemos na tela é um retrato da nossa realidade, a sensação que temos durante o filme é bem conflitante. Em um primeiro momento determinadas cenas são chocantes, mas no decorrer do filme vamos nos acostumando e o pior é que na vida funciona da mesma forma. O grau de violência em que chegamos já foi considerado algo inadmissível, mas se tornou algo tão comum que nos acostumamos. "Cidade de Deus" tem o mérito de retratar a realidade de uma parte do povo que se encontra desamparada e sem voz e hoje, quando ouve-se falar em poder paralelo, talvez nós possamos entender que a responsabilidade desse tipo de evento se deu por conivência do poder público e, acima de tudo, porque essas comunidades nunca receberam atenção de nossos governantes e acabaram vivendo uma “realidade paralela”. "Cidade de Deus" é muito verdadeiro e talvez por isso não haja mocinhos e bandidos, o que há são personagens de nossa realidade.

13 October 2004

tiros em columbine

O conceito de que um documentário deve ser totalmente imparcial é um dos grandes dogmas do cinema atualmente e praticamente dita se um filme do gênero será considerado um bom ou mal documentário. Se nos guiássemos por isso, "Tiros em Columbine" (Bowling for Columbine) seria um filme dos mais terríveis. Como não é simplesmente a imparcialidade que faz um filme, o novo documentário de Michael Moore é uma obra-prima do cinema moderno e uma acida crítica à sociedade americana.

Nesse filme, o próprio Moore sai às ruas atrás de material para achar a resposta para uma simples pergunta: o que leva os estados-unidenses a terem um alto índice de mortes através de armas de fogo. Por isso mesmo, ele usa como ponto de partida o caso de dois alunos de Columbine que entram na escola e atiram contra colegas e professores, passando por um banco que dá um rifle a quem abre uma conta, um supermercado de armas para “caça” e entrevistas com vítimas de Columbine, Marilyn Manson e o veterano ator vencedor do Oscar, Charlton Heston.

O grande ponto positivo do filme é a audácia de Michael Moore com sua crítica ácidas, suas tiradas inteligentíssimas e suas perguntas perturbadoras. Moore monta um grande painel sobre o fascínio do povo estados-unidense pelas armas de fogo e como isso pode ser uma causa do alto número de assassinatos. Entretanto, quando Moore vai ao Canadá para comparar com os Estados Unidos, qual não é a surpresa de saber que lá as pessoas também possuem armas em casa. Qual o problema então? É aí que entra a grande crítica de Michael Moore? A sociedade do medo criada pelos estados-unidenses, incentivando as pessoas a terem medo de seus vizinhos, de seus colegas de escola, dos negros, dos mexicanos, dos aparelhos domésticos. A mídia no controle da sociedade estados-unidense mostra violência numa proporção muito maior do que acontece e Moore tenta mostrar como isso é ridículo.

O interessante é notar a total falta de imparcialidade de Moore que usa os depoimentos e as fabulosas imagens de arquivo conseguidas a seu favor. Como por exemplo cito a entrevista que ele fez com dois garotos que estudavam em Columbine e que andavam com uma arma, sendo considerados um risco para os outros alunos e os discursos de Charlton Heston para a NRA e de George W. Bush para membros das Forças Armadas. Ele usa frases de um contexto e insere em seu contexto, deixando de ser sincero com o telespectador. A diferença é que o resultado agrada e nem nos preocupamos com esse fato. A figura de Moore torna tudo tão leve e descontraído que nossas emoções são de nojo com essa sociedade do medo e Moore mostra muito bem o absurdo dela. Sua ironia é tanta que em certo momento ele se pergunta porque não culparam o boliche pelas mortes em Columbine já que jogar boliche foi a última coisa que os dois garotos fizeram antes de invadirem a escola com as armas (daí a ironia do título no original). As pessoas preferiam colocar a culpa nos desenhos animados da televisão, nos brinquedos que remetem à violência e nas músicas com conteúdo impróprio como as de Marilyn Manson que se defende dizendo que é muito fácil por a culpa nas músicas e não enxergar a causa real do problema.

No final temos a grande máxima do filme com a entrevista de Charlton Heston, presidente da NRA (Associação Nacional de Carabina) que mostra como a sociedade está pouco se importando com o problema até que a pessoa seja a vítima. E Moore passa todos os problemas que levam aos crimes e nos fornece todos os seus argumentos, mas termina o filme como se não tivesse dado a resposta para sua pergunta inicial. É um paradoxo inexplicável que Moore nem se preocupa e terminando com mais uma crítica ácida? O assassinato de um funcionário da pista de boliche onde os garotos de Columbine jogaram antes de invadirem a escola. E então, Moore volta ao início de tudo e joga boliche.

Não é lindo enxergar o mundo tão criticamente, mesmo que seja seu próprio país, mostrando toda sua indignação e, mais ainda, patriotismo? É o que faz Michael Moore em "Tiros em Columbine".

31 March 2004

contemporary brasilian literature

not too long ago i was asked by a friend for my recommendations in contemporary Brasilian literature. this was a very interesting question given that my friend speaks English and not Portuguese. since i often only have one opportunity per year to actually get any recent works, i am forced to choose carefully - as few literary works in Portuguese make it outside of the Lusophonic world, my determination to read them places me at odds with those who want to experience them in English.

after some careful thought, here are my recommendations. the good news for the Anglophonic world is that they all have been translated to English. the bad news for the Lusophonic world (beyond the authors and publishers) is that they all have been translated to English. i've provided synopses in both English and Portuguese.

Dona Flor e seus dois maridos (1976) - Jorge Amado
(Dona Flor and Her Two Husbands)
Amado marries comedy to magical realism in this book that spawned a Bruno Barreto file with Sonia Braga, and gives an excellent portrait of life in Bahia.

Viúva do mulherengo Vadinho, a honesta Dona Flor se casa com o comportado farmacêutico Teodoro. Mas Vadinho reaparece, só para ela, e a tenta com seu amor fogoso. "Dona Flor e seus dois maridos" é a mais famoso livro de Jorge Amado, e se baseia em um caso real, acontecido em Salvador na década de 30. Virou filme de muito sucesso em 1976, dirigido por Bruno Barreto, com Sônia Braga como Dona Flor, Mauro Mendonça como Teodoro e José Wilker como um Vadinho debochadíssimo. Teve uma refilmagem americana e uma versão recente para TV. O próprio Jorge Amado conta que pensou em fazer Dona Flor recusar Vadinho, em nome de sua moral. Mas depois mudou de idéia, segundo ele surpreendido pela personagem que criou, que escolhe o amor. Um amor que transcende a morte em uma história alegre e sensual.

A República dos sonhos (1984) - Nélida Piñon
(The Republic of Dreams)
The much-translated Piñon has won many awards, most recently one for lifetime achievement. This novel has four generations of a Brazilian family grappling with their Spanish past.

Nélida Piñon busca em suas raízes galegas a inspiração para criar uma saga sobre as aventuras dos imigrantes que aportaram no Brasil na virada do século e um legado cultural construído com lágrimas, suor e sonhos. Madruga é o jovem camponês que deixa a Galícia natal para embarcar num navio com destino ao Rio de Janeiro, tendo ao lado o companheiro Venâncio. A partir de um emprego humilde numa pensão da Praça Mauá, a vida de Madruga descreve uma trajetória de êxitos e fracassos que freqüentemente põem à prova seus ideais de liberdade e felicidade. Décadas depois, cabe à neta Breta juntar os fragmentos e reconstituir a história de sua família, que se confunde com a história recente do país.

Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (1988) - Rubem Fonseca
(The Lost Manuscript)
A darkly humourous thriller involving a jewel heist and the world-renowned Carnaval of Rio, this is just one of three of Fonseca's novels translated into English.

"A imaginação é um labirinto em que o difícil não é a saída, é a entrada", diz Rubem Fonseca num de seus contos. Com Vastas emoções e pensamentos imperfeitos ele nos abre o caminho para um mundo onde a realidade e a ficção, o sonho e a vigília, se confundem numa intrigante história cujo pano de fundo é o cinema. Estão presentes todos os elementos que consagraram Rubem Fonseca como um dos melhores escritores brasileiros - o ceticismo, a concisão, a aguda percepção da realidade e o absoluto domínio da história, cuja agilidade e perfeita progressão de suspense mantêm o leitor cativo até o final do livro.

O Alquimista (1988) - Paulo Coelho
(The Alchemist)
As ripe with build-up as 'Jonathan Livingston Seagull' or 'The Horse Whisperer', this quest story of a shepherd named Santiago has thousands of worshipers worldwide.

O jovem pastor Santiago tem um sonho que se repete. O sonho fala de um tesouro oculto, guardado perto das Pirâmides do Egito. Decidido a seguir seu sonho, o rapaz se depara com os grandes mistérios que acompanham a raça humana desde a sua criação: o Amor, os sinais de Deus, o sonho que cada um de nós precisa seguir na vida. A peregrinação de Santiago, narrada pelo escritor Paulo Coelho em O alquimista transformou-se num dos maiores fenômenos literários do século XX.
Caminhando em uma caravana pelo deserto do Saara, ele entra em contato com pessoas e presságios que lhe indicam o caminho a seguir. Entre eles, um misterioso personagem: um Alquimista. É quem irá ensiná-lo a penetrar na Alma do Mundo, e a receber todas as pistas necessárias para chegar até o tesouro.
Considerada uma das artes mais antigas e misteriosas da humanidade, a alquimia mobilizou corações e mentes durante muitos séculos. Entre seus seguidores encontram-se desde famosos escritores até alguns dos mais renomados cientistas modernos. Seus objetivos — transformar metais em ouro e descobrir o elixir da longa vida, que uma vez tomado é capaz de evitar que o corpo humano envelheça – aparecem descritos em linguagem simples e direta, sem perder a poesia dos antigos tratados da Grande Obra. Fartamente ilustrado, o livro traz 14 textos de alquímicos raríssimos, dois dos quais pertencentes à Biblioteca do Vaticano.
Para escrever O alquimista, Paulo Coelho visitou as pirâmides do Egito, em busca dos códigos principais da Grande Obra, e esteve no deserto do Saara, onde situa grande parte do livro. O alquimista chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em 18 países, foi adaptado para o teatro em diversos países, e conta com uma legião de fãs que inclui personalidades como Julia Roberts e Madonna.

O elogio da mentira (1998) - Patrícia Melo
(In Praise of Lies)
The follow-up to Melo's impressive debut 'O matador' (The Killer), this is an unusual thriller that proves her to be one of the best young novelists in Brasil.

Em meio a historia de um crime cometido por um casal nao muito comum: um escritor (solteiro) de livros p/encomenda e uma biologa (casada) especialista em cobras, a autora da um tom ironico que leva o leitor as ultimas paginas. Uma parodia ao genero policial.

Achados e perdidos (1998) - Luis Alfredo Garcia-Roza
(December Heat)
Garcia-Roza's Inspector Espinosa returns in his third murder mystery redolent of Rio de Janeiro.

Depois do sucesso de O silêncio da chuva, Luiz Alfredo Garcia-Roza volta com o policial Espinosa. O recém-promovido delegado de Achados e perdidos continua o homem reservado do tempo da delegacia da praça Mauá, no centro do Rio. Neste livro, Vieira, delegado aposentado, está ao lado dele a cada novo fato violento, entrega-se aos encantos da insinuante Flor, a prostituta que termina por capturar também Espinosa ao lhe oferecer o corpo perfeito. O policial se deixa ainda perturbar pelo umbigo de Cristina, a pintora; quem sabe não se apaixonará por ela?

24 January 2004

lost in translation

worth watching, especially if you have ever experienced immersion in an alien culture. the scene with the old man in the hospital trying to [slowly, as if it might help] explain to bob where he is from, while a physician attempts to explain to charlotte that her blackened, bruised toe is not broken.